Estudo – Ser igreja: Discipulado (parte 1)

“Sentindo, assim, tanta afeição por vocês, decidimos dar-lhes não somente o evangelho de Deus, mas também a nossa própria vida, porque vocês se tornaram muito amados por nós”.

1 Tessalonicenses 2:8
Aula 1: O alvo e os desafios para mantê-lo
Aula 2: Discussão: Eventos x Discipulado

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INTRODUÇÃO

Olhando para a igreja contemporânea, é possível observar que a igreja fez seu trabalho de várias maneiras. É perfeitamente aceitável que tenha cometidos erros involuntários, pois ninguém começa maduro em absolutamente nada nesta vida. Porém, com o passar dos anos é esperado que as pessoas e instituições amadureçam, o que envolve definir bem o propósito de sua existência. Os erros não são para ser colocados numa estante e contemplados como troféus com vetor contrário: lembranças negativas. O apóstolo Paulo disse assim:

Não que eu já tenha recebido isso ou já tenha obtido a perfeição, mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficam para trás e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus (Filipenses 3:12-14).

O apóstolo está falando de sua tentativa de alcançar Deus por meio da sua auto-justiça, como diz o v. 9. Mas, em dado momento ele considerou a justiça própria como lixo, buscando apenas a justiça que há em Cristo, inclusive alertando aos cristãos da Galácia a este respeito:

Ó gálatas insensatos! Quem foi que os enfeitiçou? Não foi diante dos olhos de vocês que Jesus Cristo foi exposto como crucificado? Quero apenas saber isto: vocês receberam o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Será que vocês são tão insensatos que, tendo começado no Espírito, agora querem se aperfeiçoar na carne? (Gálatas 3:1-3)

Se for para tentar alcançar justiça própria, o caminho é a lei. Mas, às vezes tentamos alcançar isso através uma lei moral própria que criamos com base nos princípios familiares, sociais e dos mandamentos bíblicos (da maneira como os entendemos). O coração humano é tão orgulhoso que tentamos transformar a graça em lei; as disciplinas espirituais em legalismo que nos justifique. Mas se você quer tentar mesmo, o caminho é a lei de Moisés, o que ninguém – nem o próprio Moisés -, conseguiu. No NT isso também não foi possível, o próprio Paulo diz em Romanos 7 que considerou tal justiça como “esterco”, palavra que pode ser traduzida ainda como “estrume” ou “menos que lixo” (NVT), “lixo” (NAA) ou “refugo” (ARA). A ideia é de resíduos, ou restos atirados aos cachorros. Atualmente nossos animais de estimação comem ração “superpremium”. Mas, ainda podemos ver cachorros revirando lixo da rua; esta é uma boa imagem para um ser humano procurando justiça pelas obras – e não por meio da fé. Certamente Deus não nos quer revirando lixo, até porque não encontraríamos justiça lá, somente lixo; como Paulo. A saída do apóstolo foi, como diz o v.8, ser achado por Deus em Cristo, e não em si mesmo na tentativa da justiça própria, mas sim justiça que procede de Deus, por meio da fé.

Sua morte nos justificou diante de Deus, pagando o preço do pecado dos nossos pensamentos e ações. E Sua ressurreição nos deu nova vida, para que pudéssemos dar novos passos, o discipulado cristão. Se este entendimento e fé não ficarem claros em nosso pensamento, crença e vida – em nosso discipulado pessoal – não podemos fazer discípulos. E nem podemos, senão o que vamos é ensinar as pessoas a revirarem as lixeiras da justiça própria.

O termo pode parecer pesado, mas é exatamente o usado pela Bíblia. Algumas pessoas acham que elas têm alguma participação em sua salvação. Mas, conforme diz no livro de Jonas, “Ao Senhor pertence a salvação!” (Jn 2.9). Isaias diz: “Todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças são como trapo da imundícia” (Isaías 64:6a). Antes do ser humano receber o dom da fé na obra de Cristo, é isso que podemos produzir, no máximo. O que não é suficiente.

Voltando a Filipenses 3, é precisamente a justiça que vem de Deus então que Paulo busca. Ele deixa para trás a justiça própria e busca em Cristo e em sua suficiente obra o que precisa e almeja: a paz com Deus. O alvo é o mesmo, mas o meio é outro. .v10.

Esse tem que ser claramente nosso entendimento de discipulado. Em primeiro lugar para viver e aplicarmos a verdade a nós mesmos. Depois, para que cumpramos bem a missão do Ide de Deus. Do contrário só conseguimos fazer membros de igreja religiosos e não discípulos.

O problema estava em nossa natureza que não conseguia cumprir a Lei de Deus. Deus resolveu isso nos dando aos que Ele chamou uma nova natureza, nos fazendo nascer de novo. A natureza pecadora é contrária a lei de Deus e não pode cumpri-la, impedindo-nos de ter justiça.

A obra de Cristo paga os nossos pecados, nos permite nascer de novo e começar uma nova vida. Ela traz justificação imediata, mas também um caminho pela frente, pois é uma nova vida que começa. Apesar de termos uma nova natureza é necessário considerar duas realidades:

  1. A velha natureza ainda está presente em nosso andar, mas agora não mais como dominante e sim como dominada, sendo necessário levá-la à Cruz todos os dias: “Jesus dizia a todos: — Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lucas 9:23). Isso é possível com a morte de Cristo.
  2. Como um bebê recém nascido, ainda não conseguimos viver como pessoas maduras e temos um processo a seguir. A natureza espiritual segue o mesmo e básico princípio. Precisamos de alimento (a pregação, o estudo e a leitura da Palavra), de disciplina, de aconselhamento e de convivência com pessoas mais maduras para crescer. Isso é proporcionado por uma família, a igreja. O pastor vai pastorear por meio da pregação, estudos e aconselhamento, e os discípulos vão discipular, por meio da comunhão, ensino e de um trabalho de discipulado que o pastor precisa implantar na igreja. Conseguimos isso por meio da ressurreição de Cristo.

A experiência de morte e ressurreição é diária em nosso viver. É o que Paulo busca aqui.

SER E FAZER DISCÍPULO: ERROS E ACERTOS NA PRÁTICA

Mateus 28.19,20      

Ainda com o olhar sobre a igreja contemporânea, creio que podemos observar o seguinte: no início ela tinha clara a missão de evangelizar e fazer discípulos. Na busca por meios de conseguir tal objetivo, tentou fazer eventos a fim de atrair as pessoas. E de fato conseguiu. Ao perceber o resultado, dedicou-se a promover mais eventos a fim de atrair mais pessoas, não duvidamos que no início com uma paixão missionária sincera.

Como fazer eventos não é uma coisa fácil, a estratégia foi se tornando cansativa. Como existem prazos a serem cumpridos, os eventos passaram a se tornar prioridade, os cultos passaram a ser mais cansativos e portanto mais rápidos também. Os pastores, envolvidos demais nos eventos, começaram a ter pouco tempo para explorar a fundo a Palavra de Deus no preparo da pregação, passando a trazer mensagens mais rasas. Cansadas, com os próprios desafios da vida sempre crescentes, e as atividades da igreja, as pessoas precisavam ouvir uma palavra de ânimo do pastor. Como ninguém tinha tempo para uma reunião separada, passou a usar o púlpito para dar pílulas rápidas de ânimo, para não deixar “cair a peteca”, em meio aos desafios reais da vida cristã e agora também para a realização das festividades e programações “evangelísticas”.

Sobrecarregas as pessoas passaram a ter menos paciência uma com as outras, uma vez que o compromisso da graça de Deus é com os ensinamentos de Cristo e não com estratégias além da medida e fora do foco da vida e missão dos discípulos de Jesus. Diante de tanto trabalho, os crentes queriam ser reconhecidos, valorizados, mesmo que internamente; também mágoas passaram a surgir com aqueles que não acompanhavam o ritmo de suas realizações. Queixas contra irmãos “frios” e não “comprometidos” surgiram e o pastor teve que começar a administrar os conflitos do ativismo.

Desejando alguma recompensa, e querendo algum estímulo, os crentes passaram a fazer eventos para si mesmos, regados a louvor, shows e preletores badalados, cada vez mais frequentes. Nesta altura o culto passou a ser relegado, as pessoas vinham por obrigação, atrasas, cansadas, assim como o próprio pastor. A mensagem passou a ser de auto-ajuda e com homem no centro, Jesus foi esquecido, a Bíblia, com pouco tempo para ser estudada, passou a ser usada como pretexto para amparar as ideias e visão de vida dos pregadores.

Por fim, as pessoas se esqueceram do porquê estarem fazendo isso tudo e não tinham mais uma visão clara dos resultados pretendidos. A igreja ficou mais cara, as pessoas cobrando uma das outras a “disposição” do irmão em fazer “a obra de Deus”. E os que eram atraídos pela igreja com atividades? Não foram discipulados, passaram a ouvir mensagens emocionais e emocionantes, se viciaram na atividade e a igreja passou a fazer crentes: alguns verdadeiros, outros não, porém não fazia mais discípulos. Os que criam paravam aí, mas não amadureciam, só tinham atividades e “programações”.

Na busca por uma experiência com Deus, ao invés de vivermos o modelo de Paulo de Filipenses 3, o qual ele pede para sermos imitadores dele, perseguindo a Verdade da justificação e crescimento, o emocional entra em cena, com pessoas tentando saciar sede espiritual com coisas humanas, alegando que tudo isso é uma questão de fé, mas demonstrando de fato uma clara falta de fé bíblica, pois estão crendo errado e buscando errado também.

A forma de corrigir o assunto é: pregar o Evangelho como ele é e buscar o amadurecimento e capacitação dos crentes, antes de “jogá-los” no serviço e os dirigirem para dar o fruto cristão de fazer discípulos. Se fosse fácil, todo mundo faria, mas as igrejas já erraram e adiaram bastante a missão e pode agora então compreener que este é o tempo de almejar ser uma igreja discipuladora (missional), assumindo os esforços e compromissos para isso, pela graça de Deus, e por amor a Cristo.

Uma última palavra sobre eventos: nada impede que, enquanto a igreja vai crescendo, sendo capacitada para servir e dar frutos de discipulado, e de fato servindo e dando frutos, que ela faça atividades sociais, na verdade isso é positivo e necessário para a convivência dos membros da igreja. Também gera a oportunidade de convidarmos pessoas não crentes para estarem conosco. O ponto é que isso precisa ser eventual e não ocupar as pessoas a ponto delas perderem a visão e a essência: ser e fazer discípulos. Para isso, os eventos precisam ser o óbvio do seu nome: eventuais, a fim de quebrarem a rotina e promoverem convivência e comunhão. Isso é bom como algo paralelo (como fazemos em nossa família, por exemo), mas não como a missão ou o “carro chefe” da igreja, se for, vai virar confusão.

No próximo estudo veremos com mais detalhes, então, o que é discipulado biblicamente.

O que podemos adiantar e deixar para reflexão da semana é: Jesus é o modelo de pastor. Ele pastoreou por meio do ensino, visitava quando o chamavam, mantinha uma vida de oração, teve uma dedicação incomparável ao estudo das Escrituras, a ponto de debater com mestres adultos aos 12 anos.

Todavia, Ele não discipulou a todos, mas somente os 12. Isso porque é impossível para um pastor discipular toda a igreja. Ele pode pastorear, mas não discipular todo mundo. O que restringe o pastor de fazer isso não é falta de amor ou dedicação e nem mesmo trabalho, mas a limitação humana, frente ao que é discipulado. Assim, Deus deixou a Sua igreja esta tarefa. Então, se os pastores assumirem a responsabilidade de promover o discipulado na igreja, usando o modelo de Jesus (e não um modelo novo, mas o mesmo modelo, porém com as pessoas deste tempo), então poderá dar início a um trabalho que é como um trator: não tem velocidade, mas tem força. E as igrejas vão se tornando cada vez mais relevantes.

Este é um trabalho que Jesus começou e nunca mais parou na Sua igreja. Os resultados não duradouros e perenes, e não efêmeros como a estratégia de eventos para discipular. Eventos podem ser boas “iscas” para pescar homens, serem usados como pontes, nos moldes descritos acima (lembrando: eventuais), mas se usado como carro chefe, suas consequências serão de fracasso, vemos isso na prática em muitas igrejas que cresceram neste modelo e depois não conseguiram dar sustentação à vida e aos relacionamentos cristãos, e perderam muitos membros. Ou então que tiveram que manter este ritmo, pois as pessoas querem mais daquilo pelo qual foram atraídas. Neste caso temos igrejas cheias, mas de pessoas vazias.

Assim, o caminho é que as pessoas precisam ser pastoreadas pelo pastor, através das pregações, aconselhamento, estudos, capacitação e liderança, e discipuladas pelos discípulos, através dos relacionamentos vida na vida. Nem todos imitarão Jesus como pastor, pois nem todos foram chamados para isso, mas certamente todos deverão imitar ao Senhor no processo de discipulado, a fim de cumprir o Ide. Isso é ser igreja.

Que pela cultura do discipulado Deus reerga as igrejas cristãs pelo mundo, em Nome de Jesus, amém.

Pr. Leandro Hüttl

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